Jogos inesquecíveis



Vídeos: (1) Melhores momentos, (2) torcida acompanhando jogo em um bar e (3) chegada da delegação em Santos.

Rosario Central 0 x 0 Santos

Data: 21/10/1998, quarta-feira.
Competição: Copa Conmebol – Final – Jogo de volta (decisão)
Local: Estádio Gigante Arroyto, em Rosário, na Argentina.
Público: 50.000
Árbitro: Ubaldo Aquino (PAR).
Cartões amarelos: Cuberas, Cappelletti, Marra e Flores (R); Claudiomiro, Marcos Bazílio, Athirson, Sandro e Narciso (S).
Cartões vermelhos: Daniele (R) e Eduardo Marques (S).

ROSARIO CENTRAL-ARG
Buljubasich, Jara, Marra (Cappelletti), Gerbaudo e Cuberas; H. González (E. González), Daniele, Rivarola e Gaitán; Flores e Maceratesi (Ruiz).
Técnico: Edgar Bauza

SANTOS
Zetti, Anderson, Sandro, Claudiomiro e Athirson; Marcos Bazílio, Élder, Narciso e Eduardo Marques; Fernandes (Baiano) e Alessandro (Adiel).
Técnico: Émerson Leão.



Santos é campeão sob clima de guerra

Time conquista primeiro título internacional após a “era Pelé”; polícia chegou a dar tiros para conter torcida

Em partida marcada por tiros da polícia argentina, ameaças de Leão de não entrar em campo, brigas entre os jogadores e muitos objetos atirados contra os brasileiros, o Santos conquistou a Copa Conmebol empatando por 0 a 0 com o Rosario Central, fora de casa.

Com o resultado, o time da Vila Belmiro ganhou seu primeiro título internacional oficial desde a “era Pelé”. O último havia sido em 1969, quando o Santos conquistara a Recopa mundial, vencendo a Inter, por 1 a 0, na Itália.

Foi também o 13º título de um clube brasileiro nas três principais competições sul-americanas de futebol na década de 90 -Libertadores, Supercopa e Conmebol.

A partida começou com 40 minutos de atraso, porque os brasileiros temiam por sua segurança, depois de quase terem sido agredidos por torcedores argentinos ao chegarem ao estádio.

Para conter a fúria da torcida do Rosario, policiais tiveram de dar pelo menos 12 tiros, o que também serviu para assustar os santistas.

O técnico Emerson Leão, irritado, achava que o time não deveria entrar em campo, mas alegou que eles foram obrigados a jogar “para não morrer”. “Meus jogadores não tinham condições psicológicas para entrar em campo. Não tinham condição nenhuma, nenhuma, são jovens, todos com 20, 20 e poucos anos… Só entramos mesmo porque, se não tivéssemos entrado, poderíamos ter morrido.”

Mesmo com toda a pressão psicológica a que esteve submetido antes do jogo, o Santos surpreendeu no início. Quem esperava que o time de Leão entraria recuado, tentando segurar o empate, resultado que lhe garantiria o título da Conmebol, acabou vendo uma equipe brigando no meio-campo, com a marcação mais adiantada e tentando criar alternativas de ataque.

Mesmo assim, no primeiro tempo as três melhores chances foram do Rosario, duas com o atacante Flores, uma com o meia Rivarola. Nas três ocasiões, quem salvou o Santos foi o goleiro Zetti.

No segundo tempo, o Santos voltou um pouco mais recuado, mas o Rosario, aparentando nervosismo, diminuiu o ritmo, nem sequer conseguindo construir alternativas de gol.

A partir dos 20min da etapa final, com a necessidade de o time da casa marcar pelo menos um gol, levando a decisão para os pênaltis, o jogo ficou ainda mais tenso.

Em pelo menos quatro ocasiões, brasileiros e argentinos trocaram empurrões, causando a interferência do juiz, que acabou expulsando, em primeiro lugar, o santista Eduardo Marques, e depois, o argentino Daniele.
Terminada a partida, os jogadores do Santos nem conseguiram comemorar direito a conquista, com medo de que os torcedores argentinos invadissem o campo.

Os policiais e os seguranças contratados pelo Santos pediram para que o time tentasse deixar logo o campo, evitando problemas.

No final, o goleiro Zetti, emocionado, conclamou a torcida santista a comparecer à praça Independência, em Santos, para comemorar o título obtido na Argentina.

“Estou muito contente, envaidecido até. O coração está muito satisfeito e o título é para todo mundo, para os jogadores que estão machucados, suspensos, que não estiveram aqui”, comentou Leão.

“E estou muito mais contente ainda porque fui bicampeão em cima dos argentinos”, completou o treinador, referindo-se ao título que havia conseguido no ano passado diante do Lanús, quando dirigia o Atlético-MG.

Violência deixa Leão no banco

Suspenso por seis jogos pela Confederação Sul-Americana de Futebol, sob acusação de ter tentado agredir o árbitro Jose Luis da Rosa no primeiro jogo da final, Emerson Leão obteve autorização para assistir a partida de ontem do banco de reservas.

O “perdão”, segundo representantes da própria Confederação Sul-Americana, deveu-se à falta de segurança a que o treinador santista estaria submetido se tivesse visto o jogo das tribunas do estádio Gigante del Arroyito.

“Eu ter ficado no banco é o de menos. Perto de tudo o que aconteceu com a gente antes do jogo nem importância tem. Vocês, no Brasil, não têm idéia do que nós passamos. O jogo tinha que ter sido suspenso, como queria o nosso presidente”, desabafou Leão antes do início da decisão.

Mesmo não parando de reclamar da atitude dos argentinos, o treinador disse que nada se compara ao que ele passou na decisão da Conmebol do ano passado, quando comandava o Atlético-MG.

Na final do torneio de 1997, Leão foi agredido no rosto com uma barra ao tentar apartar uma briga entre atletas de seu time e jogadores, dirigentes e torcedores do Lanús, também da Argentina, que ficou com o vice-campeonato. “Aquilo foi uma loucura, uma barbaridade. Não entendo como a Confederação (Sul-Americana de Futebol) tolera uma coisa dessas”, voltou a vociferar ontem o técnico santista. “Jogar na Argentina é assim mesmo.”

Jogo tem 10% de penetras

A pressão contra os jogadores do Santos, principalmente antes do início da partida, foi ainda maior do que a esperada, porque pelo menos 5.000 penetras conseguiram entrar no estádio.

A capacidade oficial do Gigante del Arroyito é de 50.351 lugares, dos quais 32 mil nas gerais, o restante nas cadeiras.

Os argentinos, no entanto, haviam prometido que não venderiam mais do que 45 mil ingressos, de forma a evitar maiores confusões na arquibancada e, consequentemente, maiores problemas para os santistas, alvos fáceis da torcida local.

Como cerca de 5.000 pessoas conseguiram entrar no estádio, driblando a segurança, mesmo sem ter pago ingresso, o estádio ficou superlotado, contrariando os prognósticos iniciais dos argentinos.

Para Emerson Leão, tudo o que aconteceu na noite de ontem, desde a chegada do Santos ao estádio, representa uma vergonha para o futebol argentino. “Mais uma”, como o treinador fez questão de frisar.

Além da pressão da torcida, os santistas reclamaram do estado do gramado, com muitos rolos de papel higiênico atirados nas duas áreas e nas laterais do campo, rádios e ovos atirados contra os brasileiros e a polícia argentina.



Santos busca título inédito desde Pelé (Em 21/10/1998)

Time adota sigilo na final da Conmebol e leva seguranças para a partida contra o argentino Rosario Central

O Santos decide hoje à noite o título da Copa Conmebol contra o Rosario Central preparado para enfrentar uma batalha campal no estádio El Gigante del Arroyito, em Rosario (Argentina).

“Nossa expectativa é a pior possível. É nesse momento que se prova quem é um grande jogador”, afirmou o zagueiro Sandro, para quem os santistas disputarão uma partida de futebol dentro de uma “praça de guerra”.

A animosidade, decorrente da tradicional rivalidade entre Argentina e Brasil no futebol, foi reforçada pelos incidentes na primeira partida da final, em que o Santos venceu por 1 a 0 na Vila Belmiro.

Naquele jogo, a violência prevaleceu. Os argentinos tiveram três jogadores expulsos (Scotto, Carracedo e Bustos Montoya) e os santistas, dois (Jean e Viola). Nenhum deles atuará hoje. O resultado deu ao Santos a vantagem do empate hoje para chegar ao título, mas os argentinos deixaram o gramado comemorando. Se ganharem por dois gols de diferença, serão campeões. Uma eventual vantagem argentina por apenas um gol leva a decisão para a disputa por pênaltis.

Caso conquiste o título, o Santos voltará a ser campeão de um torneio internacional oficial pela primeira vez desde a “era Pelé”. A última conquista foi em 1969, quando o time foi campeão da Recopa Mundial, ao vencer a Internazionale por 1 a 0 na Itália.

Uma conquista do Santos também consolidaria a hegemonia brasileira na Conmebol. Desde 1992, ano de estréia do torneio, três brasileiros venceram quatro vezes a competição -Atlético-MG (92 e 97), Botafogo (93) e São Paulo (94). Os argentinos Rosario e Lanús ganharam em 95 e 96, respectivamente.

Para enfrentar os rivais na Argentina, o Santos montou uma operação “militar” para tentar contornar as adversidades no terreno inimigo. A delegação viajou ontem à tarde e iria passar a noite em Buenos Aires, a fim de que o sono dos jogadores não fosse perturbado pela torcida do Rosario.

“Os argentinos fizeram isso na Copa de 78 com a seleção brasileira e no ano passado não deixaram o Atlético-MG dormir”, afirmou o técnico Emerson Leão.

O técnico, campeão da Conmebol pelo clube mineiro em 1997, dirigirá o Santos das tribunas, por ter sido expulso na outra partida.

Por razões de segurança, Leão não autorizou a divulgação antecipada dos hotéis em que o Santos se hospedará em Buenos Aires e Rosario, para onde viajará de avião somente hoje pela manhã.

Como forma de evitar hostilidades, Leão abriu mão inclusive do treino de reconhecimento do gramado, ao qual o Santos teria direito, pelas regras da Conmebol.

Segundo o gerente Marco Aurélio Cunha, dez seguranças acompanham a delegação santista.

A diretoria do clube convidou para assistir a partida o presidente em exercício da Confederação Brasileira de Futebol, Alfredo Nunes. O objetivo é ter o dirigente como “testemunha” se o Santos vier a sofrer algum prejuízo. “Já comuniquei à Federação Paulista, à CBF e à Confederação Sul-Americana que se houver qualquer senão, qualquer coisa estranha, o Santos não entra em campo”, declarou o presidente Samir Jorge Abdul-Hak.

A indicação do árbitro paraguaio Ubaldo Aquino desagradou aos santistas. O juiz é o mesmo acusado de prejudicar o São Paulo no ano passado na decisão da Supercopa, ao marcar um pênalti supostamente inexistente em favor do River Plate, da Argentina.

Leão usa rádio para guiar time

O técnico Leão vai dirigir o time do Santos das tribunas do estádio Gigante del Arroyito. Munido de um aparelho de rádio, o treinador transmitirá suas instruções ao preparador de goleiros, Pedrinho Santilli, no banco de reservas.

Leão não estará em campo porque foi suspenso por seis jogos pela Confederação Sul-Americana, acusado de tentar agredir o juiz uruguaio Jose Luis da Rosa no primeiro jogo da final, em Santos.

“Não avisaram ninguém sobre o julgamento, e não me deram direito de defesa. O que interessava para eles era tirar o treinador do Santos. Isso é jogo de cartas marcadas, já estamos sabendo”, declarou.

Leão volta hoje a Rosario pela primeira vez desde 1978, quando defendeu a seleção brasileira como goleiro na partida contra a Argentina (0 a 0), pela Copa do Mundo. “Não tenho boas recordações e não gosto deles (os argentinos).”

A aversão do técnico aos rivais latino-americanos se acentuou após a decisão da Conmebol-97, contra o Lanús, em que foi agredido no rosto com uma barra de ferro ao tentar apartar uma briga.

No jogo de hoje, o técnico tem pouquíssimas opções para escalar o Santos. Devido às suspensões e contusões, somente 15 jogadores integram a delegação.

O atacante Alessandro viajou machucado. Ele sente dores na virilha, devido a uma pancada, mas diz pretender atuar mesmo assim. “Treinei com dores, mas acredito que não vão me incomodar durante o jogo”, disse.

Narciso não teme ser alvo

O volante Narciso, capitão santista, diz não acreditar que será o jogador mais visado pelos argentinos na final da Conmebol.

Narciso foi um dos protagonistas do lance que resultou na expulsão do santista Jean, na primeira partida da final, na Vila Belmiro, dando uma cotovelada no meia González. (FS)

Repórter – Você ficou marcado pelos rivais por causa da cotovelada?
Narciso – Acho que não, porque eles também bateram e, se fizerem isso de novo, será melhor para a gente, porque perderão jogadores (expulsos).

Repórter – Como os santistas vão se comportar em relação à arbitragem?
Narciso – Não podemos deixar a equipe deles crescer para cima do árbitro. Tem de haver uma pressão nossa também, porque dessa maneira o juiz terá de tentar apitar certo. Estamos jogando contra os adversários e contra os bandeirinhas e os árbitros.

Repórter – Como capitão, pretende conversar com o juiz antes da partida?
Narciso – Claro. Em jogos Brasil-Argentina, é sempre muito difícil. A partida fica truncada, e o árbitro tem de estar sempre perto do lance para ver a jogada corretamente, porque o jogador argentino é muito catimbeiro.