Santos 1 x 1 Portuguesa

Data: 02/04/2000, domingo, 16h00.
Competição: Campeonato Paulista
Local: Estádio da Vila Belmiro, em Santos, SP.
Público e renda: não divulgados
Árbitros: Paulo César de Oliveira e Luís Marcelo Vicente Cansian.
Cartões amarelos: Rincón (S); Simão e Émerson (P).
Gol: Leandro Amaral (10-1, de pênalti); Simão (50-2, contra).

SANTOS
Carlos Germano; Michel, Galván, Márcio Santos e Dutra; Baiano (Eduardo Marques), Rincón, Valdo e Robert (Caio); Dodô (Deivid) e Valdir.
Técnico: Carlos Alberto Silva

PORTUGUESA
Fabiano; Denilson, Émerson, Tinho e Wagner; Simão, Sandro Fonseca, Marquinhos e Evandro; Leandro e Bentinho (Alexandre).
Técnico: Nelsinho Baptista



Gol contra salva o Santos nos acréscimos

Em casa, time do volante Rincón só conseguiu o empate com a Lusa, em 1 a 1, aos 50min do 2º tempo

Um gol contra no último minuto da partida garantiu ao Santos o empate em 1 a 1 com a Lusa e evitou que o time sofresse sua primeira derrota em casa no Campeonato Paulista.

Sem acreditar mais na reação da equipe, a torcida santista já deixava o estádio quando, aos 50min do segundo tempo, o atacante Valdir cruzou para trás e o volante Simão, da Lusa, desviou, involuntariamente, para o gol. “A bola bateu no meu rosto e foi para dentro do gol”, disse Simão.

Apesar disso, o árbitro deverá dar o gol para Valdir. “Pelo nosso volume de jogo, a derrota teria sido uma grande injustiça”, afirmou Valdir.

A Lusa saiu na frente aos 10min do primeiro tempo, no lance mais polêmico da partida. Leandro reclamou de uma falta do zagueiro Galván no lado esquerdo do ataque da Lusa. O árbitro Paulo César de Oliveira correu para o local, parou e esticou os dois braços, sinalizando que o jogo prosseguia.

Na grande área santista, o zagueiro Márcio Santos supôs que a falta tivesse sido marcada e pegou a bola com as mãos. Sob protestos dos santistas, Leandro fez a cobrança. Carlos Germano defendeu, mas, no rebote do goleiro, o atacante marcou de cabeça.

Antes do gol da Lusa, o Santos dava sinais de entusiasmo. Com menos de 1min, Valdir teve duas oportunidades. Na primeira, chutou sem ângulo nas mãos do goleiro Fabiano. Na segundo, bateu de fora da área por cima do gol.

Mas, depois desses lances, a Lusa começou a controlar o jogo, mantendo o domínio da bola no setor ofensivo, embora sem ameaçar o gol de Germano.

Após sofrer o gol, o Santos partiu para o ataque. Apesar da pressão, a defesa da Lusa, comandada pelo zagueiro Emerson, neutralizava as tabelas dos santistas.

Com isso, as tentativas santistas se resumiam a chutes de fora da área de Dodô, Baiano e Valdir.

Quando a torcida já gritava o nome do atacante reserva Caio, começou a aparecer o futebol do volante Rincón, que estava apagado no jogo e aos 16min havia recebido cartão amarelo.

Rincón pôde atuar porque, até antes do início do jogo, não tinha sido notificado por um oficial de Justiça da cassação, pelo Tribunal Superior do Trabalho, da liminar (decisão provisória) que garantiu sua transferência para o Santos.

Aos 38min, Rincón colocou a bola no meio das pernas do volante Simão, chutou forte, mas Fabiano defendeu.

No intervalo, o técnico Carlos Alberto Silva trocou Robert por Caio. A equipe voltou totalmente ofensiva, e a Lusa, a exemplo do primeiro tempo, se fechava na defesa, explorando contra-ataques.

Com o placar adverso, a torcida santista começou a se impacientar e elegeu o atacante Dodô como vítima. Aos 15min, o coro “fora Dodô” ecoou no estádio.

Dois minutos depois, o técnico Carlos Alberto Silva colocou Deivid no lugar do atacante, que deixou o gramado sob intensa vaia.

Minutos mais tarde, a revolta dos torcedores se dirigiu para o próprio Silva. No momento em que foi anunciada a substituição do volante Baiano pelo meia Eduardo Marques, aos 29min, os torcedores gritavam em uníssono “burro, burro, burro”. O coro contra o treinador continuou mesmo após o empate.

Zagueiro Márcio Santos aponta erro do árbitro

O zagueiro Márcio Santos disse ter colocado as mãos na bola no pênalti que originou o gol da Lusa induzido pela atitude do árbitro Paulo César de Oliveira. “Ele parou em cima do Leandro, e o estádio inteiro pensou que era falta.O próprio Bentinho me disse que pensou que o jogo tinha parado.”

No momento da marcação do pênalti, todos os jogadores santistas partiram para cima do juiz. No intervalo, o auxiliar técnico Júlio Leal Neto também tentou tirar satisfações com o juiz, mas foi impedido. “Em Matão, contra a Matonense, ele já tinha nos prejudicado.”

Apesar das queixas generalizadas dos santistas, o atacante Caio disse que o árbitro agiu corretamente.

Paulo César de Oliveira não comentou o lance. “Não posso dar entrevistas sobre aspectos técnicos e disciplinares.”

O Santos à espera do Messias

JOSÉ GERALDO COUTO

O campeão mundial Marcio Santos teve ontem, na Vila Belmiro, seu momento de peladeiro: logo no início do primeiro tempo, presumindo que o jogo estava parado, pegou a bola com as duas mãos dentro da área. Pênalti para a Lusa.

Leandro bateu muito mal, mas teve sorte: rebatida por Carlos Germano, a bola voltou caprichosamente para sua cabeça, dando-lhe uma segunda chance.

Curiosamente, o outro gol da partida, que deu o empate ao Santos no último instante, também nasceu de uma casualidade. Uma bola cruzada na área lusa ricocheteou no goleiro e na zaga e foi para o fundo da rede.

O fato de nenhum dos gols ter sido fruto de planejamento, habilidade ou competência diz muito sobre o clássico. Em outras palavras, faltou futebol ontem na Vila Belmiro.

Foram poucas as jogadas dignas das melhores tradições dos dois clubes. O Santos teve mais posse de bola, mas não soube o que fazer com ela. Poucas vezes foi à linha de fundo, poucas vezes tentou tabelas.

Sobraram chuveirinhos, chutes de longe e algumas arrancadas individuais (duas de Rincón no primeiro tempo, uma de Michel no segundo). Não passou disso.

A Lusa -cuja enganosa modéstia parece espelhar a de seu treinador, Nelsinho Batista- mostrou-se mais eficiente na defesa e perigosa no ataque. É um time sem estrelas (ao contrário do Santos), mas com alguns bons jogadores, como o volante Simão, o meia Evandro e os atacantes Leandro e Bentinho (que ontem não jogou nada).

O Santos tem diversos atletas que já passaram por seleções (Carlos Germano, Marcio Santos, Rincón, Caio, Valdo), mas não parece um time, e sim um ajuntamento de jogadores, que podem jogar bem numa partida e pessimamente na outra.

Carlos Alberto Silva não conseguiu impor um padrão de jogo a esse elenco caro. E precisa fazer isso logo, pois a pressão é muito grande.

A torcida santista, acostumada às glórias passadas, é uma das mais impacientes do país. Em sua constituição psicológica, parecem mesclar-se o sentimento de superioridade de quem já foi dono do mundo e o complexo de vira-lata de quem não ganha nada.

Jogar no alçapão da Vila Belmiro é uma vantagem duvidosa para o time. Ontem, por exemplo, a torcida praiana vaiou seus próprios jogadores, xingou o treinador de burro e chegou a gritar “olé” quando a Lusa tocava a bola de um lado para outro.

O peso de uma história gloriosa, a sombra de Pelé, a longa espera por um título expressivo -tudo isso contribui para abalar a tranquilidade do elenco santista, instaurando em torno do clube uma espécie de mentalidade messiânica e salvacionista: cada jogador que entra, cada novo técnico, cada presidente eleito tem a responsabilidade de resolver de uma hora para outra o “karma santista”.

Em suma: se algum time precisa de orientação psicológica, esse time é o Santos.

Para Valdir, time levou quatro pontos

Os santistas comemoraram o empate de ontem com grande alívio, como se houvessem vencido.

“Ganhamos praticamente quatro pontos, porque tiramos três pontos da mão deles e ainda ganhamos um”, interpretou o atacante Valdir, responsável pelo lance que resultou no empate.

Na análise do jogador, o problema do Santos ontem foram as finalizações. “Tem dias que você não conclui bem.”

Já o goleiro Carlos Germano atribuiu a fraca atuação às dimensões da Vila Belmiro. “O campo é menor, os adversários sempre vêm fechados. Mas eles têm jogadores muitos rápidos, como o Evandro e o Leandro, o que facilita o contra-ataque.” O problema, segundo o técnico Carlos Alberto Silva, foi a forma como a Lusa marcou. “O gol deles desestabilizou nossa equipe.”

“O que eu fazia ali?”, questiona Simão

O volante Simão, autor do gol contra que deu o empate ao Santos no final do jogo, se lamuriou bastante ao deixar o campo.
“O que eu estava fazendo ali?”, questionou-se o jogador.

“Você fica muito triste, passam mil coisas na sua cabeça.”

No lance, aos 50min da segunda etapa, Valdir cruzou, Fabiano desviou, a bola bateu no rosto de Simão e entrou. Para o volante, não houve motivo para os cinco minutos de acréscimos concedidos pela arbitragem.

Para Nelsinho, esse não foi o problema. “Enquanto o jogo não acabar, o time tem que ter atenção”, disse o técnico.

A Lusa estuda requerer na Justiça desportiva os pontos da partida, pelo fato de Rincón ter atuado (o Tribunal Superior do Trabalho cassou liminar que permitia ao jogador atuar pelo Santos).

Créditos:
Fonte: http://acervo.folha.com.br/fsp/2000/04/03/20//566444
Vídeo: Indicado por Danilo Barbosa.