São Paulo 2 x 0 Santos

Data: 30/01/1994, domingo, 16h00.
Competição: Campeonato Paulista – 3ª rodada
Local: Estádio do Morumbi, em São Paulo, SP.
Público: 14.402 pagantes
Renda: CR$ 26.883.700,00
Árbitro: Oscar Roberto de Godói.
Cartão vermelho: André (SP, 30-2).
Gols: Juninho (38-1); Valdeir (38-2).

SÃO PAULO
Zetti; Neguitão (Gilmar), Júnior, Válber e André; Axel, Doriva, Juninho e Leonardo; Guilherme (Ronaldo Luís) e Valdeir.
Técnico: Muricy Ramalho

SANTOS
Gilberto; Índio, Júnior, Marcelo Fernandes e Silva (Serginho); Dinho, Gallo e Paulinho Kobayashi (Marcelo Passos); Macedo e Neizinho.
Técnico: Pepe



São Paulo é dominado, mas bate o Santos

Goleiro Gilberto, do Santos, leva gol pelo meio das pernas e ajuda seu ex-time a alcançar a terceira vitória

Mesmo sem jogar bem, o São Paulo venceu o Santos por 2 a 0, gols de Juninho e Valdeir, ontem no Morumbi, e já é líder isolado do Paulistão, com 6 pontos ganhos.

Jogando sob chuva, que chegou a ameaçar a realização da partida, a equipe são-paulina foi sobrepujada taticamente pelo adversário, mas venceu graças à eficiência de seus contra-ataques e à má atuação do goleiro Gilberto.

No duelo entre os “renegados” Dinho e Axel, venceu o santista. “Me sinto mais à vontade para jogar no Santos que no São Paulo”, reconheceu. Pepe utilizou o volante para anular Leonardo e subir ao ataque.

Por sua vez, Axel ficou perdido no rápido meio-campo do São Paulo: não sabia se marcava ou subia à frente. “Acho que foi uma boa estréia. Ganhamos e é isto que interessa”, declarou.

Não foi só o novo volante que sentiu falta de orientação. Com uma burocrática atuação do interino Muricy, ao São Paulo faltou uma mudança tática para liberar Leonardo ou encontrar um posicionamento mais adequado a Axel. Muricy não comprometeu, mas deixou a impressão de que o time sente falta de Telê.

Juninho teve que correr muito para compensar isso. Com Leonardo anulado por Dinho, o meia ficava ou preso à marcação ou abandonado no ataque, assim como Valdeir. Graças a sua habilidade, conseguiu chegar ao gol santista mais de uma vez. E, aos 38min do primeiro tempo, num lance de sorte, contou com a falha homérica de Gilberto, que não segurou um chute fraco de fora da área. “A equipe ainda sente a falta de entrosamento e de preparo físico”, afirmou.

No segundo tempo, com o campo mais seco, esperava-se que a eficiência do São Paulo anulasse a garra santista. Mas as indefinições táticas continuaram e o inverso aconteceu.

Macedo e Paulinho Kobayshi infernizaram, sem resultado, a defesa são-paulina, fragilizada pela falta de entrosamento entre Válber e Júnior Baiano.

Para fechar o jogo, Valdeir fez um belo gol aos 38 min, enganando Gilberto ao chutar com o pé direito. Uma jogada trabalhada com Leonardo, momento raro em que a dupla funcionou.

Pepe lamenta falta de pontaria do time

O técnico Pepe, do Santos, tentou de tudo –gritou com os jogadores durante toda a partida, investiu contra o árbitro Oscar Roberto de Godói, exigindo um pênalti, mas sentiu a dura realidade ao cumprimentar seu colega Muricy, do São Paulo, ao final do jogo.

“O resultado foi uma piada. Me senti como se tivessem metido a mão no bolso, mas na verdade percebi que o meu problema é o ataque do time”, lamentou-se, enumerando seis chances reais de gol não aproveitadas.

O treinador santista irritou-se com a falta de pontaria. “Não se pode perder gols como fizeram os nossos atacantes. Quando eu lembro da minha época, fico mais irritado”, comentou Pepe, que velamente fazia coro com a torcida, que pedia a presença do atacante Guga, ainda sem contrato. “Preciso urgente de um centroavante. Podia ser o Guga, mas ele quer um salário de jogador italiano, o que é impossível”, comentou.

A preocupação de Pepe com o ataque revelou sua satisfação com a estreia do volante Dinho. O ex-jogador do São Paulo recebeu uma missão espinhosa: anular a ação do meia Leonardo, principal articulador do ataque adversário. “Como prêmio pelo cumprimento da missão, eu tive uma liberdade para atacar e tentar o drible que o Telê não me dava”, contou Dinho, satisfeito com o novo posicionamento tático. A mudança, porém, ainda não foi bem absorvida. Ao final do jogo, o volante rumou, por engano, para o vestiário do São Paulo. “É que estou tão acostumado a seguir esses caras…”, justificou-se. E, ao analisar os gols são-paulinos, sentiu com mais força a nova realidade provocada troca de camisa. “Lá, a sorte também é muito grande.”

Os jogadores santistas evitavam comentar os gols, especialmente o primeiro. Apesar de um chute fraco de Juninho, de fora da área, o goleiro Gilberto calculou mal a defesa com os braços. A bola passou por debaixo de suas pernas e rumou ao seu canto direito. Como Gilberto estava se apoiando justamente na perna direita, não conseguiu pular, limitando-se a acompanhar desesperado o gol. “Eu fui consciente na bola”, jurou Gilberto. “Mas ela desviou e, como eu estava ainda frio, não tive como pular. Só pude ver a bola entrando.” Depois do lance, Gilberto só foi consolado pela torcida.

O técnico Pepe ainda tentou desviar a atenção para a atuação do árbitro Oscar Roberto de Godói. Ao final do 1º tempo, ele perseguiu o juiz, cobrando a não marcação de um pênalti. “Fui avisado por um repórter de televisão que foi pênalti. Eles reprisaram várias vezes o lance”, disse Pepe a Godói. A resposta foi seca: “Sinto muito, mas não vejo televisão durante o jogo”.



‘Renegados’ querem ir à forra com Telê ( Em 30/01/1994 )

Santos e São Paulo fazem o clássico dos trocados hoje, às 16h, no Morumbi. Três santistas entram em campo hoje com uma motivação extra para enfrentar o time do técnico Telê Santana. Envolvidos na troca que levou o volante Axel para o Morumbi, Gilberto, Dinho e Macedo têm a chance hoje de enfrentar o seu ex-clube.

“A garra desses três vai impressionar muita gente”, prevê o técnico Pepe.

Para o goleiro Gilberto, é impossível enfrentar o São Paulo e esquecer o que classifica de “injustiça” cometida contra ele pelo técnico Telê Santana. “Ele nunca me deixou explicar um atraso que tive ao retornar ao hotel onde estava a delegação, durante uma excursão. Fui marginalizado”, reclamou.

O goleiro encara o jogo de hoje como uma boa oportunidade para demonstrar o seu valor. “Por tudo isso, tem um sabor especial enfrentar o São Paulo. Uma vitória nossa pode até ser uma ótima resposta a tudo o que passei. Mas vou jogar tranquilo. Acima de tudo sei que tenho valor e estou contente por jogar em uma grande equipe”, disse.

Mais descontraído, o atacante Macedo, destaque do Santos na estréia contra o Guarani, promete “correr o dobro que o normal para vencer o São Paulo”. Para ele, o jogo de hoje é acima de tudo um clássico, e uma vitória daria mais motivação para que o grupo pudesse crescer durante o campeonato. Macedo, antes de ir para o Santos, estava emprestado ao Cruzeiro de Minas Gerais.

O técnico Pepe é quem mais torce por essa motivação extra. Apesar disso, promete manter cautela na armação tática da equipe. O Santos entra em campo com dois volantes –Gallo e Dinho. “A motivação é fundamental. Independente disso, quero que o ponto alto do nosso time seja a marcação”, afirmou.

Na quarta-feira passada, o Santos empatou na sua estréia no campeonato, com o Guarani em 2 a 2, em plena Vila Belmiro. O primeiro jogo da equipe da Vila Belmiro, contra o Bragantino, foi adiado, por causa das fortes chuvas que inundaram o estádio no sábado.

Pepe orientou o ataque do Santos a não jogar fixo. Tanto Macedo quanto Paulinho Kobayashi devem permanecer se deslocando constantemente pelas duas laterais do campo. O treinador quer explorar a velocidade dos dois jogadores. Por isso, Pepe pediu que o meio-campo evite exagerar no toque de bola. “Para surpreender o São Paulo, a bola tem que chegar com rapidez na frente. Temos que pegar a defesa deles aberta”, concordou Paulinho Kobayashi.

Quem tem a incumbência de ligar a defesa ao ataque com velocidade é o meia-esquerda Ranielli. “Além disso, a grande característica do Santos será a garra na marcação. Prometo que o São Paulo não vai ter moleza”, afirmou.

A única dúvida na escalação do Santos é o lateral-direito Índio. “As coisas estão evoluindo. Pode até dar para jogar”, disse o jogador, sobre as negociações para renovação do seu contrato.

Pepe ainda espera reforço

Depois de perder suas principais estrelas, o ponta Almir, vendido para o futebol japonês, e o volante Axel, cedido ao São Paulo em troca de Gilberto, Dinho e Macedo, o Santos tem hoje no São Paulo seu primeiro grande desafio no Campeonato Paulista.

O técnico Pepe ainda espera que a diretoria consiga um ou dois atacantes. Um dos nomes mais cotados é o do ponta-esquerda Luciano, que está atualmente no Internacional de Porto Alegre, e que, há dois anos, esteve no Corinthians.

Um jogador que estava nos planos de Pepe era o meia Carlos Alberto Dias, que acabou indo para o Flamengo, já que a diretoria do Santos vetou o seu nome.

No momento, Pelé, o maior jogador da história da equipe, é também a maior esperança de um time forte. Durante esta semana, o agora dirigente esteve no Japão, em busca de uma empresa que, no futuro, invista no Santos. Recentemente, o time firmou um contrato de US$ 50 mil mensais com a Lousano, que vale até o fim do Campeonato Paulista.

Dinho revela suas mágoas

Bicampeão mundial interclubes pelo São Paulo, o volante Edi Wilson José dos Santos, 27, o Dinho, teve um destino bem diferente do reservado aos que saíram do clube nos últimos tempos. Em vez do milionário futebol do exterior, foi para o Santos. Sem esconder a mágoa causada pela transação, Dinho afirma que está animado para sua estréia. Por ironia, contra seu ex-clube.

Repórter – Você guarda ressentimentos devido à sua saída inesperada do São Paulo?
Dinho – Eu fiquei chateado, não por vir para o Santos, que é uma grande equipe, mas por causa da maneira como a negociação foi feita. Eu estava de férias e ninguém me falou nada. Quando cheguei, as coisas estavam feitas.

Repórter – Em quanto foi fixado o seu passe?
Dinho – Não sei direito. Acho que foi em torno de US$ 500 mil.

Repórter – Você concorda com esse valor?
Dinho – Não, mas como eles queriam se desfazer de mim, colocaram muito abaixo do que valia.

Repórter – Como é mudar para um clube em dificuldades, sem as mesmas facilidades que você tinha no CT do São Paulo?
Dinho – O Santos tem uma boa estrutura. Não como a do São Paulo, mas é um grande time, que conquistou os mesmos títulos mundiais, e tem uma boa diretoria. Eu já joguei em times com condições piores do que as do Santos. Não estou sentindo essa diferença.

Repórter – Jogar contra o São Paulo tem gosto de vingança?
Dinho – O São Paulo foi uma coisa boa na minha vida e eu guardo boas lembranças. Apesar de tudo, não tenho inimigos e não encaro o jogo como vingança.

Repórter – Correu um boato de que jogadores do São Paulo achavam você “arrogante”. O que há de verdade nessa história?
Dinho – Isso é mentira. Pode perguntar para qualquer jogador do São Paulo, com os quais sempre tive um relacionamento muito bom.

Repórter – E quanto à sua adaptação à cidade?
Dinho – Eu e minha mulher somos do Nordeste e estamos acostumados com praia e calor. Por isso, acho que vai ser fácil.

Repórter – Você conhece bem o São Paulo. Como vencer o jogo?
Dinho – Temos que neutralizar os jogadores rápidos, principalmente os laterais, que apóiam muito. Mas não adianta só marcar. Temos que jogar para frente.