Palmeiras 2 x 2 Santos

Data: 19/02/1995, domingo.
Competição: Campeonato Paulista – 1ª fase – 1º turno – 4ª rodada
Local: Estádio Parque Antarctica, em São Paulo, SP.
Público: 5.376 pagantes
Renda: R$ 47.864,00
Árbitro: Oscar Roberto Godói
Cartões amarelos: Índio, Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos e Daniel Frasson (P); Narciso e Giovanni (S).
Cartão vermelho: Gallo (S, 28-2).
Gols: Rivaldo (04-1), Giovanni (06-1) e Marcelo Passos (34-1, de pênalti); Alex Alves (04-2).

PALMEIRAS
Velloso; Índio, Antônio Carlos, Cléber (Tonhão) e Roberto Carlos; Amaral, Daniel Frasson, Válber (Paulo Isidoro) e Rivaldo; Maurílio e Magrão (Alex Alves).
Técnico: Valdir Espinosa

SANTOS
Edinho; Silva, Marcelo Moura, Narciso e Marcos Paulo; Gallo, Carlinhos, Marcelo Passos (Ranielli) e Giovanni (Rogério); Macedo (Cerezo) e Jamelli.
Técnico: Joãozinho Rosa



Clássico termina empatado em 2 a 2

Santos e Palmeiras empataram em 2 a 2 ontem no clássico disputado no Parque Antarctica. Os palmeirenses começaram vencendo, sofreram a virada e conseguiram empatar no 2º tempo.

Com os demais resultados deste fim-de-semana, o São Paulo é o líder isolado do campeonato, com 12 pontos ganhos.

O XV de Piracicaba, que só empatou com o Novorizontino, está na vice-liderança, com 11 pontos.

Com o empate de ontem, o Palmeiras soma agora cinco pontos, enquanto o Santos tem oito.

O clássico começou nervoso. As duas defesas cometiam falhas e os ataques aproveitaram o momento de desequilíbrio para movimentar o placar.

O Palmeiras abriu o placar quando o lateral-direito Silva errou ao tentar tirar a bola da área santista. O atacante Rivaldo só tocou para o gol de Edinho.

Este foi o primeiro gol sofrido pelo goleiro santista, que perdeu uma invencibilidade de 274min no Campeonato Paulista. Mas os palmeirenses não tiveram tempo para comemoração.

Dois minutos mais tarde, o meia Giovanni aproveitou a falha de toda a zaga do Palmeiras para empatar o jogo. O jogador cabeceou na saída do goleiro Velloso, após cobrança de falta do lateral Silva.

O Palmeiras tinha o domínio da partida e permanecia mais tempo no campo do adversário. O Santos tentava parar as tabelas, principalmente de Válber e Rivaldo, com faltas. Mas todos estes lances foram desperdiçados nas más cobranças do lateral-esquerdo Roberto Carlos.

O Santos jogava no contra-ataque e utilizava a rapidez dos atacantes Jamelli e Macedo. Em uma dessas jogadas, Macedo escapou pela meia-direita, invadiu a área e sofreu pênalti de Roberto Carlos.

O meia Marcelo Passos cobrou e, apesar do desvio de Velloso, desempatou: 2 a 1.

“Está faltando empenho para o nosso time”, criticou o lateral-esquerdo Roberto Carlos, ao final do primeiro tempo.

O técnico Valdir Espinosa concordou e fez três modificações no intervalo: Tonhão no lugar de Cléber (machucado), Paulo Isidoro no de Válber e Alex Alves no de Magrão.

As alterações surtiram efeito. O Palmeiras aumentou seu poder de combate na marcação de meio-campo e anulou o contra-ataque santista.

O bicampeão paulista Alex Alves disputou um lance aéreo com o zagueiro Moura e empatou: 2 a 2.

A partir daí, o Palmeiras se lançou ao ataque e obrigou o goleiro Edinho a fazer boas defesas.

Aos 28min, o Santos teve o volante Gallo expulso. Com isso, o técnico Joãozinho, para garantir o empate, retirou o atacante Macedo para a entrada de Cerezo.

Técnico do Santos elogia substituições do adversário

O técnico do Santos, Joãozinho, elogiou as alterações feitas pelo seu colega palmeirense, Valdir Espinosa, no intervalo do jogo de ontem.

“As entradas do Paulo Isidoro e do Alex deram nova cara ao Palmeiras. Isso dificultou muito o trabalho da nossa marcação.”

Os números do jogo, apurados pelo Datafolha, confirmam em parte a justificativa do técnico santista para o recuo do seu time no segundo tempo.

Por um lado, Alex Alves foi mais efetivo do que Magrão. Fez duas finalizações —um gol— contra uma do jogador que começou jogando.

Mas Paulo Isidoro esteve pior do que Válber. Deu oito passes certos e Válber, 24. Foi pior nos desarmes (2 x 9) e nas finalizações (0 x 1).

Joãozinho também não conseguiu deter a principal jogada do Palmeiras no segundo tempo: os avanços de Maurílio pela direita. Mandou o lateral-esquerdo Marcos Paulo não atacar (e o Santos perdeu três contra-ataques por isso), mas só isso não adiantou. Sozinho, contra Maurílio e Índio, Marcos Paulo fez nove desarmes incompletos —quando a bola continua com o adversário.

Para ele, o time ainda está em formação. “No início da temporada, falei que o sucesso da equipe dependia muito da disposição de todos em darem o melhor de si e eles entenderam.”

Joãozinho lamentou o gol de empate, aos 4min do segundo tempo. “Tínhamos programado para aproveitar a vantagem no placar. Com o gol, eles ganharam ânimo e vieram para cima.”

A necessidade de marcar mais foi a causa da saída de Marcelo Passos. Até sair aos 15min do segundo tempo, fez dois desarmes completos. Ranielli, seu substituto, jogou os 30 minutos finais e fez quatro.

Jamelli critica Roberto Carlos

O meia Jamelli, do Santos, saiu de campo reclamando do lateral-esquerdo Roberto Carlos. “Disse para ele que se quisesse fazer a falta, podia me puxar a camisa, não precisava entrar tão forte.”

O meia também reclamou do juiz Antônio Carlos de Godói, que marcou sobrepasso do goleiro Edinho.

“Ninguém apita mais isso. O Edinho estava no embalo para chutar a bola para frente.”

Jamelli foi um dos destaques do time. Fez a jogada mais bonita do jogo, no segundo tempo. Num contra-ataque do Santos, ele recebeu a bola pela direita, no meio-campo. Fez que ia passar a Macedo. Quando os palmeirenses Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos se praparavam para cercar o ponta santista, ele cortou pelo meio. O gol só não saiu porque o ataque santista não acompanhou o lance.

O lateral-esquerdo Marcos Paulo ressaltou a conquista de um ponto pelo time em São Paulo. “E ainda continuamos invictos”.

O jogador explicou que, no segundo tempo, teve ordens do técnico Joãozinho para não passar do meio-campo —vários contra-ataques do Santos morreram por causa disso.

O lateral-direito Silva reclamou que “a frente recuou demais”. “Estávamos com o jogo nas mãos. Mas o empate foi bom.”

O zagueiro e capitão Narciso elogiou a marcação do time. “Fomos uma equipe coesa, que não deu espaços.”



Mudança atrapalha os planos do Santos

A decisão do técnico do Palmeiras, Valdir Espinosa, de escalar todos os titulares no clássico desta tarde contra o Santos atrapalhou os planos do Santos. A tática do técnico Joãozinho foi definida com base na informação de que o Palmeiras atuaria com o seu time reserva.

Anteontem à noite, no entanto, após à vitória do time sobre o ABC por 2 a 1 pela Copa do Brasil, em Natal, o técnico do Palmeiras, Valdir Espinosa afirmou que escalaria os titulares.

O Santos acreditava no uso de reservas no Palmeiras porque o adversário tem estréia programada para terça-feira contra o Grêmio na Taça Libertadores da América. Joãozinho contava com a possibilidade de levar vantagem no entrosamento sobre o time misto do Palmeiras.

O Santos pretende explorar os erros do Palmeiras para vencer o clássico de hoje. Em razão disso, o estilo de jogo da equipe santista será a mesma empregada no empate contra o XV, em Piracicaba, de 0 a 0, no último domingo, fora de casa.

O time terá apenas uma mudança, com a entrada do zagueiro Marcelo Fernandes (ou Cerezo) no lugar de Maurício Copertino, que cumpre suspensão automática.

O técnico Joãozinho quer o time “ligado durante todo o jogo”, aproveitando qualquer descuido do adversário desta tarde, no Parque Antarctica, em São Paulo.

“O Santos vai jogar marcando forte, dificultando os passes do adversário para, nos eventuais erros, recuperar a bola e sair rápido nos contra-ataques”, afirmou Jamelli, ex-São Paulo.

Ele e o atacante Macedo atuarão sem posição fixa hoje à tarde.

Nos três primeiros jogos do campeonato (duas vitórias e um empate), o ponta-direita Macedo apareceu atacando, por diversas vezes, pelo lado esquerdo do campo.

“O Santos sempre teve um lado direito forte, o que acostumou os adversários a reforçar a marcação pelo setor. Como o Joãozinho tem dado liberdade, eu estou me arriscando pela esquerda”, disse Macedo.

Além disso, o número 11 do Santos —Marcelo Passos— não joga como ponta-esquerda.

“Eu sou mais um jogador para auxiliar o meio do time, o que deixa espaços para que outro jogador ocupe o lado esquerdo”, afirmou.

O treinador instruiu Marcelo Passos e Giovanni a jogarem com velocidade, recebendo e lançando com rapidez a bola para Macedo e Jamelli nas costas dos zagueiros palmeirenses.

Durante os treinos para o jogo de hoje, os atacantes ensaiaram diversas jogadas de bola parada para faltas próximas à grande área e escanteios.

“São coisas que foram surgindo de observações do Joãozinho durante os treinos. O primeiro gol do Santos no campeonato (de uma cobrança de escanteio) saiu de uma jogada ensaiada”, afirmou Giovanni.

A defesa do Santos —sem tomar gols nos três primeiros jogos do campeonato— não terá o zagueiro central titular Maurício Copertino. O jogador foi expulso na última partida do Santos. No seu lugar, deve entrar o também zagueiro Marcelo Fernandes, que renovou seu contrato com o clube na última quarta-feira.

Caso Fernandes esteja bem fisicamente, a outra opção do treinador é escalar Cerezo na zaga contra o Palmeiras.

Mesmo afastado do time desde o início de janeiro, Marcelo Fernandes não teme a falta de entrosamento com os demais jogadores. O jogador fez apenas dois treinos coletivos esta semana com a defesa titular.

“Eu conheço o estilo de jogo do Silva, Narciso e Marcos Paulo. Só isso já favorece o entrosamento”, afirmou o zagueiro.

Joãozinho prega maior liberdade

O técnico do Santos, João Rosa Filho, o Joãozinho, 38, quer devolver ao jogador brasileiro a “liberdade para criar”.

Para ele, o papel do treinador e dos clubes é “aprimorar o talento do atleta”, tornando-o um jogador capaz de exercer diversas funções.

Repórter – Qual a sua filosofia de trabalho?
Joãozinho – O principal é poder aprimorar o jogador. Antes, o europeu era melhor fisicamente. Com o tempo, atingimos o mesmo estágio. Falta dar mais liberdade ao jogador. Busco o atleta exerce diversas funções.

Repórter – Existe um brasileiro nesse perfil?
Joãozinho – O Zico se preparou para ser um grande atleta. Hoje, não adianta só gostar de jogar, tem de ser um profissional.

Repórter – Como você pretende fazer isso?
Joãozinho – Dando noção de profissionalismo. O brasileiro chega ao clube trazendo habilidade. Cabe ao técnico treiná-lo, conversar e mostrar as evoluções táticas e técnicas do futebol.

Repórter – Você se preparou para ser técnico de futebol?
Joãozinho – Nos últimos cinco anos da minha carreira comecei a observar o trabalho dos treinadores. Gosto de analisar o adversário, para depois armar o meu esquema de jogo.

Repórter – Procede a fama de durão, disciplinador?
Joãozinho – Sou disciplinador, sendo amigo. Acho que existe uma hierarquia que tem que ser respeitada, como em uma família.

Marcelo Passos rejeita o título de ‘Romário da Vila’

Ex-rebelde, moreno, baixo (1,72 m), camisa 11, Marcelo Passos, 24, artilheiro do Santos no Campeonato Paulista com três gols, tem as características que fizeram a fama de Romário, mas rejeita a comparação.

Ele se diz mais completo que o atacante do Flamengo. “Não vejo o Romário cobrando escanteios e faltas, voltando para armar jogadas e correndo o campo todo.”

Outra diferença entre os dois, diz, são os gols de cabeça. Ele nunca marcou um pelo Santos.

Passos entra em campo hoje a fim de apagar da memória um episódio que marcou sua participação no clássico. Foi justamente em uma partida contra o Palmeiras, em março de 94, que o hoje meia titular do Santos era afastado do clube.

O motivo foi uma discussão com o então treinador, Serginho, no intervalo do jogo, que o Santos perdeu por 4 a 1.

A fama de problemático, acostumado a noitadas e pouco dedicado aos treinos quase o tirou definitivamente do Santos e do futebol.

Nascido no Guarujá e revelado no próprio Santos, Passos ingressou no time profissional em 1984, ano em que o clube foi campeão paulista pela última vez. Depois, por empréstimo, passou por Internacional de Limeira, Paraguaçuense e Londrina (PR).

“Perdi muito da minha vida na farra. Às vezes, eu chegava para treinar e dormia sentado no campo, enquanto o técnico conversava com os jogadores”, recorda.

Hoje, Passos se define como um “ex-rebelde”. Diz que a atual fase é “a melhor chance” de sua vida. “Vou comer grama, mas não saio mais desse time.”



Fonte: Estadão