Santos 3 x 0 Corinthians

Data: 19/11/1995, domingo, 19h00.
Competição: Campeonato Brasileiro – 2º turno – 8ª rodada
Local: Estádio da Vila Belmiro, em Santos, SP.
Público: 19.607 pagantes
Renda: R$ 166.435,00
Árbitro: João Paulo Araújo (SP).
Cartões amarelos: Marcos Adriano, Carlinhos, Gallo e Camanducaia (S); Célio Silva, Carlos Roberto e Marcelinho Paulista (C).
Cartão vermelho: Vitor (C).
Gols: Camanducaia (26-2), Gallo (27-2) e Camanducaia (44-2).

SANTOS
Edinho; Marcelo Silva, Narciso, Ronaldo Marconato e Marcos Adriano; Gallo, Carlinhos, Vágner (Camanducaia) e Robert (Marcelo Passos); Jamelli e Giovanni.
Técnico: Cabralzinho

CORINTHIANS
Wilson; Vitor, Célio Silva, André Santos e Carlos Roberto; Marcelinho Paulista (Tupãzinho), Júlio César, Marcelinho Carioca e Elivélton; Clóvis (Serginho) e Fabinho.
Técnico: Eduardo Amorim



Santos vence Corinthians e se aproxima da liderança

No Dia de Pelé, o Santos derrotou o Corinthians por 3 a 0, ontem, na Vila Belmiro. Todos os gols saíram na segunda metade do segundo tempo.

O Santos é, agora, o único time do Grupo B que só depende de si para ir às semifinais. O Corinthians caiu para quarto no Grupo A e precisa torcer por dois tropeços do Botafogo em quatro jogos.

Com três gols nos 20 minutos finais, o Santos bateu o Corinthians e deu passo decisivo rumo às semifinais do Campeonato Brasileiro.

Os gols foram marcados pelo atacante Camanducaia, aos 26min e aos 44min, e o volante Gallo, aos 27min do segundo tempo.

O Santos tem 15 pontos em 8 jogos no Grupo B. Está a 2 pontos do líder, o Atlético-MG, mas tem um jogo a menos.

O Corinthians complicou sua situação. Tem 16 pontos no Grupo A, 4 a menos que o Botafogo.

Antes do início da partida, Pelé foi homenageado pelo Santos. A homenagem atrasou em 15 minutos o início do clássico.

O jogo começou cheio de faltas. Quatro cartões amarelos, dois para cada time, já tinham sido dados na metade do primeiro tempo.

O time santista dominou a partida desde o início. Logo aos 9min, o meia Vágner entrou na área com a bola dominada, foi desarmado e reclamou de pênalti do lateral Carlos Roberto.

O panorama do jogo se modificou com a expulsão do lateral corintiano Vítor, aos 27min, após falta violenta em Jamelli. Os jogadores do Santos pediram pênalti no lance -Vítor acertou a perna direita de Jamelli dentro da área e o juiz não viu. O árbitro João Paulo Araújo marcou falta fora da área. O lateral corintiano já tinha cartão amarelo e foi expulso.

Mesmo com um jogador a menos, o Corinthians soube controlar a pressão do Santos.

As melhores chances do Corinthians no início do jogo vieram por meio de três cobranças de falta de Marcelinho, a 1min, 10min, e 19min, todas bem defendidas pelo goleiro Edinho.

No intervalo, o técnico corintiano, Eduardo Amorim trocou Clóvis por Serginho no ataque. O centroavante perdeu um gol aos 2min do segundo tempo -em nova boa defesa de Edinho.

Apesar do gramado pesado, devido à chuva que começou a cair no intervalo, o jogo continuou movimentado.

Aos 7min, Jamelli perdeu um gol, cabeceando para fora na pequena área.

O goleiro corintiano Wilson fez uma defesa excepcional, aos 10min, em chute do meia Robert, que estava livre na pequena área.

O primeiro gol do Santos desequilibrou a partida. O meia-atacante Giovanni entrou na área pela esquerda, levantou a cabeça e viu Camanducaia entrando livre, pelo outro lado. O passe saiu perfeito e Camanducaia, que substituíra Vágner, contundido, tocou por baixo do corpo do goleiro Wilson.

O gol desnorteou o Corinthians. Giovanni se aproveitou disso e também criou o lance do segundo gol santista. Ele atrasou a bola para Gallo. Da meia-lua, ele chutou no ângulo direito.

O Santos passou a dominar a partida e aumentou o placar aos 44min, de novo por meio de Camanducaia após lançamento longo.

Depois do jogo, a preocupação do técnico do Santos, Cabralzinho, era evitar a euforia dos jogadores.

“É muito cedo para falarmos em classificação. Temos quatro jogos difíceis (Palmeiras, Paysandu, Botafogo e Guarani) e apenas mostramos que estamos credenciados para as semifinais”, disse. “O time é jovem e, se a torcida tiver paciência, ainda vai dar muitas alegrias”, acrescentou.

O goleiro Edinho era um dos mais empolgados do time. “Foi uma vitória emocionante, devido aos acontecimentos. Foi o maior presente que o meu pai poderia ter recebido no seu dia.”

A derrota fez o Corinthians demorar 45 minutos para abrir seu vestiário para entrevistas. Quando a porta se abriu, todos os jogadores já estavam trocados.

Os jogadores evitaram falar em crise, mas o zagueiro Célio Silva resumiu a situação do time no campeonato: “Quanto mais difícil, mais gostoso”.

Giovanni lidera irresistível blitz santista
por Alberto Helena Jr.

O clássico começou muito moderno: nervoso, ágil e objetivo, embora as duas equipes mostrassem logo suas diferenças, dentro do mesmo esquema.

Enquanto o Corinthians plantava-se solidamente na defesa, o Santos movimentava-se em módulos, rapidamente, em direção ao ataque. Já a força ofensiva corintiana restringia-se aos disparos fulminantes de Marcelinho, que estabeleceu um duelo paralelo com o goleiro Edinho.

Isso até que Vítor cometesse pênalti em Jamelli (falta que o juiz marcou fora da área) e acabasse expulso. Pois não é que, a partir daí, o Corinthians ficou mais agressivo, aproveitando-se de uma sucessão de trapalhadas da defesa santista?

Mas o Santos reaprumou-se no segundo tempo e encetou uma blitz irresistível sobre o inimigo: chances e mais chances perdidas, até que dois passes magníficos de Giovanni, para Camanducaia e Gallo, e uma deixadinha, de novo para o ponta-direita, definissem o placar. Era como se o camisa 10, no dia de Pelé, fizesse uma elegante reverência diante do Rei. E do futebol.

Camanducaia reza pelo gol

Marcelo Fernandes Dominguez de Rezende, 20, o Camanducaia, foi o herói da vitória do Santos. Ele jogou apenas meia hora, o suficiente para marcar dois gols.

“Foi a primeira vez que isso aconteceu na minha carreira. Nunca fiz mais de um gol por jogo”, afirmou o jogador, que ofereceu os gols e a vitória ao “Rei Pelé”.

“Era o dia do ‘Rei’ e nós precisávamos homenageá-lo. Ele, que cansou de vencer o Corinthians, sempre está presente nos momentos importantes”, disse.

Repórter – Por que o nome Camanducaia?
Camanducaia – É o nome da minha cidade, perto de Bragança Paulista. Quando cheguei ao Santos, há três anos, o time tinha cinco Marcelos. Aí, preferiram Camanducaia.

Repórter – Você esperava entrar no jogo e decidir?
Camanducaia – Sim. O jogo estava para mim, desde o primeiro tempo. No intervalo, rezei muito e disse que faria dois gols. Sabia que iria arrebentar. Tive o meu dia de estrela e consegui retribuir o apoio da torcida.

Repórter – Qual foi a principal virtude do Santos?
Camanducaia – A garra e a determinação de todos nós. O Giovanni, por exemplo, não marcou, mas deu os passes para os três gols.
Além disso, o time não se desesperou. Soube aproveitar, no segundo tempo, a vantagem de um homem.

Repórter – O Santos é o time paulista com mais chances de classificação no Brasileiro. Até que ponto isso aumenta a responsabilidade de vocês?
Camanducaia – Seria uma honra representar o futebol paulista nas semifinais. Mostramos, contra o Corinthians, que temos condições.

Cidade celebra o primeiro Dia Pelé

O ministro extraordinário dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, foi homenageado ontem com a primeira comemoração municipal do Dia Pelé. A cerimônia foi feita antes do jogo Santos x Corinthians, na Vila Belmiro, estádio do Santos.

“Antes de um jogo como esse e com meu filho Edinho em campo, me dá muita vontade de ficar no gramado e ajudar um pouco o Santos”, afirmou o ex-jogador.

Há 26 anos, no dia 19 de novembro, Pelé marcou, no Maracanã, de pênalti, aquele que ficaria conhecido como o milésimo gol.

Levantamento feito pela Folha apurou, no entanto, que o gol mil foi marcado cinco dias antes.

“Para mim, fica a data de hoje. Mesmo assim, acho importante todo o trabalho feito pela Folha, que serve para as futuras gerações que vierem a estudar futebol.”

Às 18h32, Pelé entrou no gramado acompanhado de Edinho, do goleiro corintiano Wilson e dos capitães Gallo (Santos) e Célio Silva (Corinthians).

Mesmo chorando, Pelé se disse tranquilo. “Sou um homem de Três Corações”, disse, lembrando sua cidade natal, em Minas Gerais. “Sempre que pensarem em me homenagear, que o façam enquanto estiver vivo. Assim, posso viver o momento e retribuir.”

Venda de Giovanni emperra

O Conselho Deliberativo do Santos vai decidir a venda do meia Giovanni ao São Paulo. A diretoria decidiu submeter ao conselho a aprovação do negócio, com qualquer clube.

“Não é uma prática comum. O conselho só será consultado porque a negociação é vultosa”, disse Edmon Atik, presidente do órgão.

O diretor de futebol, Clodoaldo Tavares Santana, afirmou que o clube não está interessado na venda, nem decidiu quanto pediria pelo jogador -que pertence ao clube, não mais a Pelé.

“A saída do Giovanni, hoje, está nas mãos dele. Ele sabe as condições do Santos e quanto o clube pode oferecer”, afirmou Pelé.

Não serão o atuais conselheiros, porém, que vão decidir o negócio. No dia 2, haverá eleição para o conselho. Das 300 cadeiras, 172 serão renovadas.

O novo conselho também terá o poder de eleger o presidente do Santos. A eleição será em janeiro.

O candidato da situação será o presidente Samir Abdul Hak ou Clodoaldo. Se Samir for o candidato -a definição pode acontecer hoje-, a oposição deve lançar Antonio Aguiar.

Marcelinho Carioca vê ‘injustiça’

O meia Marcelinho considerou “injusta” a derrota para o Santos, ontem à noite na Vila Belmiro, mesmo com o placar de 3 a 0.

“Nós jogamos muito bem”, afirmou o jogador, que fez 11 finalizações, 73% do total do time.

Para Marcelinho, o Santos teve dois méritos: “Aproveitou as chances que teve” e “o Edinho estava no dia dele”, resumiu.

Ao contrário do resto do seu time, afirmou que mesmo “após o primeiro gol, o Corinthians continuou jogando bem.”

Repórter – Como você viu a derrota?
Marcelinho – Foi uma injustiça. Jogamos muito bem.

Repórter – Mas o Santos fez três gols…
Marcelinho – O Santos aproveitou as chances que teve. Nós tivemos as nossas e não marcamos.

Repórter – Nem a expulsão do lateral Vítor, no primeiro tempo, atrapalhou?
Marcelinho – Mesmo assim, continuamos bem. Em alguns momentos, demos um sufoco neles.

Repórter – E por que o Corinthians não marcou?
Marcelinho -Por causa do Edinho. Ele fez pelo menos duas grandes defesas. Em uma delas, tirou a bola do ângulo, trocando de mão, em um chute meu, no primeiro tempo.

Repórter – A derrota deixa o Corinthians longe da vaga para as semifinais do Brasileiro?
Marcelinho – De jeito nenhum. Temos condições de vencer os nossos quatro últimos jogos (União, Fluminense, Bahia e Vasco), e o Botafogo pega o Santos aqui na Vila Belmiro e tem dois clássicos regionais (Vasco e Fluminense). Pode muito bem perder a vantagem que tem sobre nós.