Jogos inesquecíveis


Santos 4 x 3 Corinthians

Data: 24/04/1994, domingo, 16h00.
Competição: Campeonato Paulista
Local: Estádio do Morumbi, em São Paulo, SP.
Público: 26.271 pagantes
Renda: CR$ 145.250.000,00
Árbitro: Oscar Roberto de Godói.
Gols: Marcelinho Carioca (08-1), Casagrande (21-1), Guga (23-1), Guga (41-1) e Dinho (26-1, de pênalti); Guga (41-2) e Casagrande (43-2).

SANTOS
Edinho; Índio, Marcelo Fernandes, Cerezo e Silva; Dinho, Gallo, Ranielli (Sérgio Santos) e Paulinho Kobayashi (Zé Renato); Macedo e Guga.
Técnico: Serginho Chulapa

CORINTHIANS
Ronaldo; Valdo, Gralak, Wilson Mano e Daniel (Elias); Zé Elias, Embu (Marques), Casagrande e Rivaldo; Marcelinho Carioca e Viola.
Técnico: Carlos Alberto Silva



Santos ganha um clássico de sete gols

Um clássico de sete gols reduziu muito as chances do Corinthians na luta pelo título do Campeonato Paulista de 94. O Santos venceu por 4 a 3 no Morumbi, num jogo em que as defesas falharam demais e os santistas Guga e Edinho deixaram o campo como heróis.

A partida colocava frente a frente os times de treinadores em situações bem distintas, Carlos Alberto Silva e Serginho Chulapa.

Depois de uma invencibilidade inicial de 17 partidas no Corinthians, Silva vinha de uma semana de maus resultados: três derrotas, para Novorizontino, Grêmio (pela Copa do Brasil) e Rio Branco.

Serginho, que assumiu o Santos na penúltima colocação na tabela e o levou ao grupo dos cinco primeiros, buscava como treinador sua primeira vitória em clássicos.

Nos primeiros cinco minutos, as defesas dos dois times já demonstravam os erros que marcariam a partida. Depois de Macedo passar por toda a zaga santista e desperdiçar boa oportunidade de abrir o placar, o Corinthians perdeu um gol feito com Viola. Cara a cara com Edinho, o centroavante chutou para a defesa do goleiro.

Aos 6min, o lateral Valdo, que retornava ao time corintiano, fez boa jogada pela direita e foi derrubado na área por Cerezo. Marcelinho cobrou bem e marcou.

Os dois times conseguiam jogar com velocidade e revezavam as chances de gol. Guga quase empatou ao receber a bola tocada por Macedo dentro da pequena área, mas chutou para fora.

Aos 21min, o Corinthians deu sinal de que poderia obter a redenção da má fase. O lateral-esquerdo Daniel carregou a bola sem marcação e, na entrada da área, abriu para Rivaldo na ponta esquerda. O cruzamento saiu preciso para Casagrande marcar de cabeça.

Nos cinco minutos seguinte, o Santos empataria o jogo com gols de Guga e Dinho, cobrando pênalti. Depois de quatro gols em meia hora, o ritmo do jogo caiu.

O Corinthians perdia a disputa do meio de campo. Embu não marcava, Casagrande estava perdido em campo e Marcelinho não tinha condições de armar o jogo.

Sem fazer força, o Santos dominava o setor com toques curtos. Foi com passes rápidos que Guga sobrou diante de Ronaldo para fazer o terceiro gol aos 41min.

O panorama não mudou muito no segundo tempo. As falhas das defesas eram tantas que qualquer bola que chegava a uma das áreas criava chance real de gol. Aí apareceu a boa fase de Edinho, com várias defesas importantes. Uma delas, num tiro à queima-roupa de Marcelinho, fez o corintiano chutar e socar a trave de raiva.

Na frente, o Santos perdia chances com a displicência de Macedo, mas chegou ao quarto gol numa cabeçada de Guga. Quando Casagrande descontou aos 43min, o Corinthians já não tinha tempo para evitar a quarta derrota seguida.

Serginho vence nos erros do adversário

“O Santos jogou nos erros do Corinthians e aproveitou as chances que teve.” Assim o técnico santista, Serginho, definiu o jogo de ontem no Morumbi.

Havia muitos erros a aproveitar. O Corinthians marcava homem-a-homem, mas com muitas falhas. Serginho percebeu isso e concentrou seus jogadores no lado direito do ataque.

O atacante Guga foi jogar do lado de Wílson Mano, que atuava como líbero. Ficou sem a marcação de Gralak e, assim, provocou o pênalti do primeiro gol santista e marcou os outros três.

O meia Paulinho Kobayashi passava sempre pelo volante Embu. Na direita, Macedo também levou vantagem sobre Daniel e, no segundo tempo, Elias.

Serginho percebeu que Ranielli rendia pouco na esquerda, marcado por Valdo, e o deslocou para o meio. Ele ficou livre e criou várias jogadas.

No fim do primeiro tempo, Kobayashi foi jogar como atacante, entre Guga e Macedo. Quando Embu voltava para marcá-lo, Ranielli ficava solto.

Serginho acertou em cheio na preleção aos jogadores. “Disse a eles que, se tomássemos um gol, não era para ninguém baixar a cabeça.” Os próprios jogadores destacaram o lado psicológico para sair de uma placar adverso de 2 a 0 e virar ainda no primeiro tempo.

“A tranquilidade foi fundamental”, afirmou o volante Dinho. “Mesmo nos 2 a 0, tínhamos certeza de que não estava tudo perdido”, disse Paulinho Kobayashi.

Segundo o lateral-direito Índio, a vitória serviu para confirmar a boa fase do Santos no campeonato. “Na hora em que precisamos, seguramos bem o resultado.” “Se fosse no primeiro turno, o jogo teria acabado nos 2 a 0”, disse o goleiro Edinho.

A reação santista no campeonato começou na 11ª rodada, quando Serginho assumiu. Em 14 jogos, o time venceu oito e empatou cinco, perdendo um. Fez 21 pontos em 28 possíveis. Desde então, conquistou 75% dos pontos disputados, um percentual superior ao de Palmeiras (74%) e São Paulo (73,9%) em todo o campeonato.

Sobre a reação da equipe ontem, Serginho disse apenas: “Eu sempre acreditei na vitória. Eles (os jogadores) têm vergonha na cara.”

‘A bola veio sempre onde eu estava’, afirma Guga

Para atacante, mais importante que gols foi a vitória

Herói do Santos na vitória sobre o Corinthians, junto com o goleiro Edinho –marcou três gols e sofreu o pênalti que resultou no gol de Dinho–, o atacante Guga deu uma explicação simples para o seu sucesso ontem. “A bola veio sempre onde eu estava, e graças a Deus bem colocado”, afirmou.

Mesmo tendo sido a segunda vez que marcou três gols contra o Corinthians –a primeira foi no Campeonato Paulista de 93, na vitória de 3 a 0–, Guga recusou o título de “carrasco do Corinthians”. “Prefiro dizer que estou preparado para fazer gols”, disse o atacante. “Afinal, tenho que honrar a camisa que visto. Me sinto realizado por ser artilheiro do Santos”, afirmou Guga, que ontem chegou a oito gols no campeonato.

Ele admitiu, porém, que “fazer gols no Corinthians é uma coisa muito gostosa”.

Guga afirmou que, no intervalo, quando já marcara duas vezes, disse aos companheiros que faria mais um gol. “Sempre gostei de jogar clássicos no Morumbi”, afirmou o atacante santista. “Mas muito mais importante que os meus três gols foi a nossa primeira vitória em clássicos no campeonato”, acrescentou.

Sobre o jogo em si, Guga disse que precisou se movimentar muito para conseguir os espaços na defesa adversária. O atacante também fez questão de dividir com os companheiros os méritos pela vitória.

“O time todo matou a pau. O Edinho, por exemplo, fez grandes defesas e salvou o Santos.”

Guga disse que, após o segundo gol corintiano, chegou a se lembrar dos 4 a 0 sofridos no primeiro turno para o adversário de ontem. “Pensei: ai, meu Deus, será que vai ser outra goleada?”

Para o atacante, o Santos começou bem a partida. “Depois deu sono no time e levamos dois gols. Mas o Serginho deu uns gritos e acordou todo mundo”, afirmou. “Aí, a equipe fez uma grande partida.”

Segundo Guga, “uma equipe como o Santos tem que ser respeitada”. “Só é pena que no início do campeonato não estávamos bem. Agora não podemos mais chegar ao título.”

Edinho garante vitória no final

Assim que acabou o jogo, o goleiro Edinho saiu correndo. Atravessou o campo atrás de Viola. Chamou-o, mas o corintiano não respondeu.
Com o lateral Valdo, conseguiu o que queria: trocar de camisa. “É para um professor amigo meu”, afirmou.

Essa cena resume a atitude do goleiro diante da partida. Não houve revanche (no primeiro turno, o Corinthians fez 4 x 0), não há rivalidade com Viola, autor de três gols naquele jogo.

O goleiro foi escolhido o melhor em campo, por várias rádios, apesar de ter levado três gols. No segundo tempo, quando a marcação do seu time começou a ceder, suportou quase sozinho a marcação corintiana. Tirou do ângulo, uma falta cobrada por Rivaldo. Defendeu, sem largar, dois chutes de Marcelinho, um deles na marca do pênalti.

No jogo de ontem, o goleiro até superou a sua maior limitação: saiu algumas vezes do gol, sem soltar a bola.

Sobre seleção, não quis conversa: “Quem escolhe é o técnico. A mim cabe trabalhar direito.”

Meio-campo santista mostra mais eficiência

A vitória do Santos foi conquistada no meio-campo, onde o quadrado armado pelo técnico Serginho Chulapa superou o esquema de Carlos Alberto Silva.

Dinho, Gallo, Ranielli e Paulinho Kobayashi acertaram 100 passes contra 75 do meio-campo corintiano, formado por Zé Elias, Casagrande, Embu e Marcelinho.

Com isso, Macedo e Guga receberam mais passes. Perderam duas oportunidades logo no começo, ocasionadas por falhas da zaga corintiana, onde Gralak e Wilson Mano tiveram atuação irregular.

Também o número de desarmes foi maior para o meio-campo santista, com 35 completos contra 33 do adversário.

O time corintiano iniciou usando as laterais, com as subidas de Valdo e Daniel. O primeiro gol saiu num pênalti em Valdo. O segundo começou com uma arrancada de Daniel desde o meio-campo.

Nesse período, a zaga santista mostrou deficiência com Marcelo Fernandes e Cerezo, que deram liberdades aos adversários. Índio foi quem melhor atuou na defesa santista. Ainda assim, a defesa santista perdeu menos bolas do que a corintiana: três a oito.

Mesmo com o placar adverso de 2 a 0, o Santos tinha melhor postura em campo.

No meio-campo, Embu, Zé Elias e Casagrande deram espaço para as jogadas de Paulinho Kobayashi e Ranielli, que souberam alimentar seus atacantes.

O Santos fez seu primeiro gol com Guga, que aproveitou uma falha da zaga contrária.

O empate veio com o pênalti cobrado por Dinho. Daniel trombou com Guga, outra vez livre na grande área.

Depois, Guga fez 3 a 2, em outra falha da zaga adversária.

No segundo tempo, o Corinthians tentou apertar. Wilson Mano chegou a avançar em alguns lances, para suprir a incapacidade do seu meio-campo.

O Santos voltou para jogar no contra-ataque, usando o desespero do adversário e a velocidade de Macedo.

Carlos Alberto tirou Embu e colocou Marques. Seu objetivo era atacar mais pela esquerda, mas costas de Índio. Rivaldo teria que encostar mais em Viola. O Corinthians pressionou, mas parou nas mãos de Edinho.

No final, o quarto gol santista saiu de um cruzamento de Índio, que subiu mais do que Gralak. O Corinthians fez seu terceiro gol, com Casagrande, mas sem tempo para qualquer reação.

Silva admite que chances são pequenas

O técnico Carlos Alberto Silva já admite que as possibilidades do Corinthians são pequenas de chegar ao título do Campeonato Paulista de 1994.

“Com a vitória do São Paulo, as esperanças são pequenas. É claro que não é impossível, pois em futebol tudo pode acontecer”, disse Silva ao sair do campo do Morumbi, ontem, quando o Corinthians foi derrotado pelo Santos por 4 a 3.

O resultado permitiu ao São Paulo, que venceu o América, abrir dois pontos. Está agora com 34, contra 32 do Corinthians e 37 do Palmeiras. Além disso, o time de Silva tem um jogo a menos do que o Palmeiras, enquanto o São Paulo tem dois.

Silva assumiu a responsabilidade pelo fracasso da equipe, mas criticou seus jogadores. “Não quero citar exemplos, mas houve uma falta de atenção muito grande”, disse o treinador quando perguntado sobre a defesa corintiana. “Um time não pode levar dois gols de modo tão fácil, ainda mais depois de estar ganhando de 2 a 0. Faltou concentração”, desabafou.

No intervalo, segundo Silva, ele tentou reanimar a equipe. “Mas não consegui. Deve estar faltando concentração. Não é possível”, reclamou.

Apesar de puxar a responsabilidade para si, Silva já usa o discurso de técnico derrotado. “Não tive tempo para contratar. Estou fazendo o que posso com o grupo que tenho à minha disposição.” “Nunca consegui repetir uma escalação até hoje e esses times remontados prejudicam o desempenho do Corinthians no campeonato”, completou Silva.

Quanto à arbitragem de Oscar Roberto Godói, Carlos Alberto Silva não quis fazer comentários. “Vou esperar para ver pela TV”, disse cauteloso. Mas não escondeu que tinha dúvidas quanto ao pênalti marcado contra sua equipe na partida, um empurrão de Daniel em Guga.

Defendeu, no entanto, as duas substituições que fez no time. “O Daniel tinha tomado cartão amarelo no primeiro tempo e eu não podia arriscar. Tive que colocar o Elias”, disse.

Elias entrou com a determinação de marcar Macedo. Mas nada disso aconteceu, pois a superioridade técnica do santista era visível. Silva divergiu: “Conseguimos anular aquele lado. Mas eles subiram pelo outro, descoberto”.

Aos 17min do segundo tempo, deixou o time com apenas um volante. Tirou Embu e colocou Marques. O meia deveria arrumar o meio-campo corintiano e tentar o gol de empate. “Nesse momento era tudo ou nada”, contou Silva.

O que ele não contou é se atendeu ao pedido da torcida, que berrava o nome de Marques desde os 10min.

Assista abaixo ao jogo completo:


Santos quer devolver a goleada do 1º turno ( Em 24/04/1994 )

O Santos quer devolver a derrota sofrida para o Corinthians por 4 a 0 no primeiro turno. O técnico Serginho acredita que pode conseguir hoje a sua primeira vitória contra o terceiro colocado no Campeonato Paulista.

Para isso, ele deve manter o meio-campo com Gallo, Dinho, Ranielli e Paulinho Kobayashi.

A hipótese da entrada de Demétrios no lugar de Kobayashi foi descartada. “Hoje, o fundamental é manter o conjunto e o entrosamento”, diz o treinador.

Uma das preocupações de Serginho é garantir que o lateral-esquerdo Silva não fique sozinho na marcação de Marcelinho.

Na zaga, Serginho deve escalar Marcelo Fernandes e Cerezo no lugar de Maurício Copertino e Júnior, que estão suspensos.

Paulinho Kobayashi atuará como falso ponta-esquerda, com a função de acompanhar as descidas do ponta-direita do adversário. “Estamos fechando todas as possibilidades ofensivas deles. Com isso, liberamos o Ranielli e os atacantes para se preocuparem exclusivamente em marcar os gols da vitória”, afirma Kobayashi.

Para o atacante Guga, artilheiro do time com seis gols, uma vitória hoje “além de apagar o mau resultado do 1º turno, consolida a ascensão do time no campeonato.”

Para o volante Dinho, a goleada sofrida na fase anterior “está entalada na garganta do time”. A mesma opinião é compartilhada pelo lateral-direito Índio. “Tem torcedor que chega e diz que não se importa em perder o título se a gente vencer o Corinthians”, diz Índio.

Mais cauteloso, o meia-esquerda Ranielli se recusa a entrar no clima de revanche. Ele acredita que mesmo uma derrota não apagará o bom segundo turno do time. “Sei que jogaremos bem. É isso que importa”, afirma o jogador.

Edinho sonha com eliminação do rival

O goleiro Edinho pretende colocar hoje um fim no sonho corintiano de ser campeão. “O último prego no caixão deles pode ser uma vitória do Santos”, afirmou.

Para a torcida, Edinho começa a ser considerado a segurança que faltava no gol. No último jogo na Vila Belmiro, o coro da torcida reverenciava pai e filho, aos gritos de “Pelé parou, Edinho começou.”

Ele não quer prometer uma vitória, mas acredita que hoje o Corinthians já tem motivos suficientes para temer o Santos.

“Evoluímos muito. Acho que agora vivemos uma situação inversa à do primeiro turno. São eles, e não nós, que têm uma sequência de derrotas”, diz o goleiro.

Nem mesmo a presença do artilheiro Viola, que na partida anterior entre os dois times marcou três gols, significa para Edinho um fator de intranquilidade para a defesa santista.

Para Edinho, Viola é um excepcional jogador. Mas ele faz questão de dizer que sua equipe conta com Macedo e Ranielli, que estão em uma boa fase e podem complicar a defesa do adversário, o setor mais fraco da equipe corintiana.

A confiança em um bom resultado só é abalada pela lembrança da morte do amigo Dener. “Perdi um irmão e isso é impossível de esquecer. Eu sei que ele estará, lá em cima, cuidando de todos nós”, afirma o goleiro santista.



Créditos:
Vídeo #1: TVs Band, Cultura e Globo
Vídeo #2: TV Gazeta